sexta-feira, 1 de maio de 2009

Reflexão Sobre o Segundo Livro da Obra 'O Suicício' de Èmile Durkheim

Introdução

Durkheim aborda o suicídio como causa tão somente social, enfatizando as características e o classificando de acordo elas. Ele dispõe de grupos suicidas: o egoísta, em que o indivíduo é motivado por um isolamento exagerado em relação à sociedade, que o transforma em um “solitário”, sendo que os laços sólidos se desintegram; o altruísta, o indivíduo está estreitamente sob a obediência do coletivo, renunciando-se à própria vida em detrimento de algo que, por sua concepção, é maior que ele; e anômico, em que o suicídio é determinado por ordem social ou econômica.

Na obra o autor redobra a atenção para as taxas de suicídios e estatísticas em determinados países que registraram números sobre esse fato. Porém, o mesmo Durkheim, sugere um melhor estudo desses dados, pois não há interpretações e explicações para tais ocorrências, decorrendo, assim, uma não exatidão de certos números.

Portanto, Durkheim desenvolve uma análise sistemática em torno de um fenômeno social, adquirindo uma forma sociológica e não psico-orgânica – o que não corresponde aos suicídios vesânicos -, partindo de formas individuais, com variação de grau, gênero, faixa etária, estado civil e casos especiais, à formação morfológica do suicídio.

Apreciação

De fato, cada grupo social tem uma tendência ao suicídio que somente é explicada por fenômeno social. Isto porque as forças exteriores, como família, Igreja, amigos, escola, grupos sociais, enfim, a sociedade, moldam o comportamento do indivíduo conforme sua integração ou desintegração nela e a sua transformação.

As formas individuais de suicídio motivam a classificação dos suicídios em egoísta, altruísta e anômico. Tais formas são condizentes com a situação social, psíquica e emocional do indivíduo. Ou seja, a análise do suicídio racional é elaborada a partir do estado psicológico em que o suicida se encontra, de como preparou e executou o suicídio e de seu estado emocional no momento do ato. Pois diversos fatores são influentes em variadas ações, exemplo semelhante a um piloto de Fórmula 1, em que ele, para vencer uma corrida, precisa estar em estado psicológico favorável, preparar o carro e executar as manobras com o máximo de perfeição e estar emocionalmente estável.

A diversidade nos tipos de suicídio é um importante aspecto no estudo da obra, uma vez que há um determinismo em cada fenômeno social. Exemplo: a violência varia de região para região e de classe social para classe social, o que não é diferente para o suicídio. Durkheim cita em sua obra a variação entre agricultores e profissionais liberais, dando margem a uma diferenciação das formas e tipos sociais de suicídio. Ele revela a pouca exatidão dos números demonstrados pelos países no século XIX, em que é notada uma aproximação entre os dois graus de profissão, o que é descartado por esse determinismo.

Assim também ele trata sobre o suicídio dentro das religiões, sejam elas cristãs ou não. Abordando com aproximação o número de suicídios dentre essas religiões, sendo que em dado momento ele retrata a religião judaica como a menos que provém de suicídios, visto como a mais cimentada. Mas quando a sociedade religiosa, da qual o indivíduo faz parte, perde sua coesão, ele procura sua autodestruição. No entanto isso não é apenas visto no suicídio, mas, como também, na sua cultura e na sua concepção econômica, o que, de fato, confirma as expectativas de Durkheim.

É comprovado, também, que o índice de suicídios por mulheres no mundo é menor que os homens, pois a mulher convive mais tempo com a família que o próprio homem. Essa informação se confirma através da carga horária de trabalho atribuída ao homem, de forma que este passa mais tempo fora do seio familiar, e isso é um fator relevante para a causa do suicídio, principalmente na forma egoísta.

Até os dezesseis anos a tendência do indivíduo ao suicídio é muito fraca por causa da idade, visto que, durante este período, o sujeito ainda não se integrou totalmente à sociedade. O mesmo conceito se utiliza para à aplicabilidade da maioridade penal, em que o jovem ainda não tem total formação de cidadania e, portanto, não é responsável por seus atos.

Segundo, Durkheim, o casamento e a vida familiar aumentam o risco de suicídio pelo fato de uma união exigir uma preocupação por parte do indivíduo quanto à sustentabilidade familiar, afeto e preservação de sua imagem.

Ainda numa mesma ordem, quanto à situação da viúva, ela é mais crítica que a do viúvo, porquanto que há dificuldade na manutenção da família e na sua consistência moral. Durante o matrimônio, em que a mulher passa a maior parte do tempo com a família, futuramente, com a perda do marido, ela sentirá muito mais a falta, pois existirão problemas de ordens econômicas e proporções éticas.

No campo geográfico, em todos os países da Europa, a Inglaterra se enquadra no padrão de menor indicador de suicídios. Porque ela fica sendo a que dá liberdade religiosa e não tendo preconceito quanto à escolha da pessoa sobre seu seguimento místico.

Durkheim elucida o modo suicida altruísta a partir de uma exasperada pressão da sociedade para com o indivíduo, de maneira que os dogmas e símbolos sociais favorecem o suicídio. Por exemplo, na obra, há uma passagem em que Plutarco cita que a espera da morte é uma desonra, isto é, a doença e a velhice são formas de não virtudes manifestadas nos homens que, através do suicídio, podem ser aniquiladas da vida do sujeito. Isso é comprovadamente verídico a partir do momento que os símbolos culturais moldam o comportamento da sociedade; o homem é produtor e produto e de sua cultura. O indivíduo, por exemplo, ao ser traído por sua esposa, posteriormente é pressionado pela sociedade a tomar decisões precipitadas pelo fato de um ato como este lhe causar tamanha desonra e vergonha, e, com probabilidade de suicídio tanto egoísta quanto altruísta, ele é levado à própria destruição.

Outra característica decorrente do suicídio altruísta corresponde à idolatria a um outro indivíduo ou instituição, determinando que sua vida plenamente depende de uma força exterior. Isto é, a mãe que se sujeita a dar a vida pelo próprio filho, visto isso muitas vezes em partos que o risco de morte do bebê é ocasionado pela própria sobrevivência da mãe. Também quando um homem de posses perde todos os seus bens, ele é instigado tanto ao suicídio para zelar o nome da família quanto à moral na sociedade quanto pelo fato de criar uma expectativa ruim em relação ao modo vida futura. Encontra-se, nesse exemplo, o suicídio anômico-altruísta.

Também a influência religiosa talvez seja uma das maiores causas de suicídio altruísta, isso porque muitos indivíduos optam pelo suicídio fundamentado em dogmas religiosos. A fome e a sede são exemplos clássicos de suicídios provenientes de crenças religiosas. No entanto, atualmente, é notória a observação desse aspecto na religião católica, em que o fiel faz sacrifício de jejum como forma de sentimento e remissão determinados pelos dogmas da Igreja, não é uma forma de suicídio, mas detém-se do mesmo objetivo: autoflagelação e submissão.

 Èmile Durkheim, em sua obra, revela que, como estado crônico, o exército se faz presente como o meio de suicídio altruísta mais freqüente na sociedade. De fato, ele é parte do objetivo do soldado: morrer pela pátria. Isso significa uma subordinação do indivíduo quanto à Instituição da qual pertence. Na guerra o suicido se faz presente em sua forma concreta quando o indivíduo renuncia a vida em cumprimento de um dever que lhe foi imposto. Certamente o autor propôs uma nova visão do exército, como forma de dominação sobre o indivíduo, enxergando uma perspectiva dogmática em torno de uma causa política, porém, de maneira funcional, ele não questiona o papel do exército quanto instituição favorável à sociedade, visando apenas seu papel quanto órgão regulador (concentração de poder) da harmonia social.

No tocante, o soldado tem por concepção dar sua vida em razão da vida do outro, entretanto a sua concepção diante da vida de soldados inimigos não pode ser igualmente comparada à primeira. Desse modo ele se torna produto da ideologia patriótica vigente em seu ponto de vista, ou seja, é programado para uma morte em favor de uma causa que não tem por objetivo beneficiar a ele próprio.

As transformações sócio-econômicas fazem com que a sensibilidade do indivíduo se torne aguçada, levando-o a uma escolha de auto-aniquilação, pensado ele não haver mais razão para viver e um ponto cume de irritação que o faz destruir a si próprio. A inflação pode ser causa do suicídio anômico, por exemplo: o cidadão ao se defrontar com uma crise econômica, sensibiliza-se – ficando irritado ou extramente melancólico – diante da situação, não pensando em um outro meio de saída senão à morte. Enfim, causas sociais influenciam no comportamento do sujeito e no seu estado emocional e psíquico, contrariando a natureza humana que não impõe a tristeza ou aborrecimento às coisas, ou seja, a mente humana atinge um estado de patologia. Não é diferente em casos freqüentes nas famílias, porém, em sua maioria, não leva o indivíduo ao suicídio; nas famílias se encontram tanto fatos melancólicos quanto aborrecimentos que tornam o comportamento do indivíduo indiferente.

Atingir a felicidade para Durkheim só é possível através dos requisitos que o meio social proporciona às necessidades humanas, isto é, o homem apenas alcança a felicidade se o desejo de viver seja mantido pela realização de suas necessidades através do meio social em que vive. Exemplo: felicidade para o judeu significa contentamento; contentar-se com o que lhe é concebido, assim como foram as perseguições anti-semitas, os judeus tinham por concepção a não redenção, porém o gratificação ao seu Deus diante da sua vontade. Porém se essas necessidades não fossem proporcionais ao meio social, o indivíduo era motivado a uma falta de razão perante a vida, o que, por conseguinte, resultaria num suicídio anômico. Entretanto a visão de sujeito passivo de Durkheim, interfere numa transformação dos requisitos propostos pela sociedade, que é dominada por uma força de concentração de poder; se o sujeito durkheimiano fosse ativo e transformador do meio social, esses requisitos seriam de tal forma moldados a partir das necessidades que lhes são atribuídas e não mais o sujeito viveria em função da sociedade, seria atuante e acima dela.

Por fim, presente nas três formas, egoísta, altruísta e anômico, o suicídio sintetiza um fenômeno social presente nas civilizações passadas, presentes e futuras. A melancolia, a não-ação, a concentração e análise de si mesmo, a individualização da consciência, o afastamento social, a falta de vontade de viver oriunda da elevação da consciência e impregnada na compreensão estóica, o estado patológico da mente e o ímpeto de fé dão implicações na auto-execução; essas formas individuais de suicídio resultam na formação morfológica da classificação destes, desde suicídios famosos como o de Judas até suicídios fictícios como os vistos em filmes na música Pais e Filhos, do compositor brasileiro Renato Russo. Todos estes têm uma causa procedente do ambiente social. Os fatores exteriores dos quais derivam essas causas, não são intrínsecos ao homem, obtendo no decorrer de sua existência como ser social. Mesmo utilizando de argumentos funcionalistas, Durkheim segregou as origens sociais dos suicídios não vesânicos, e, por isso, não apresentou a organização e modelo social funcional como causadora dessas origens, mas, sim, sua ordem operacional, distribuidora e reguladora dos fenômenos sociais como inerentes às sociedades e à sua estrutura e funcionamento.

Considerações Finais

Foi abordado, criticamente e reflexivamente, as idéias propostas pelo sociólogo francês Émile Durkheim, no segundo livro da obra O Suicídio. Ele apresentou os três tipos de suicídios e as suas divisões, tanto em suas formas individuais quanto nos números estatísticos. Inicialmente ele descreveu os tipos e as causas sociais do suicídio: enfatizando o ângulo sociológico, ele fundamentou as origens no âmbito social, descartando a “constituição orgânico-psíquica do homem e a natureza do meio físico”, como se refere no primeiro capítulo. Na resenha foi concatenada os tipos de suicídio elaborado por Durkheim e seus exemplos, sempre numa tomada atual e pertinente à realidade contemporânea, assim como foi descrito os exemplos do piloto de fórmula 1, da traição e arruinamento financeiro, o que não impediu de exemplificar também uma cultura diversificada como a do Judeu.

Então, por esse contorno, se elucidou os principais pontos da obra e suas reflexões; não se isentando do dever crítico de uma olhar acadêmico sobre a obra. Assim se fez as objeções necessárias como também a confirmação e autenticidade de pontos importantes na apreciação do livro, determinando, portanto, a validade dessas reflexões.

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