quinta-feira, 15 de abril de 2010

Nietzsche

do mundo dos filósofos

Vida e Obra

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken, localidade próxima a Leipzig. Karl Ludwig, seu pai, pessoa culta e delicada, e seus dois avós eram pastores protestantes; o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira.

Em 1849, seu pai e seu irmão faleceram; por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg, pequena cidade às margens do Saale, onde Nietzsche cresceu, em companhia da mãe, duas tias e da avó. Criança feliz, aluno modelo, dócil e leal, seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor"; com eles criou uma pequena sociedade artística e literária, para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos.

Em 1858, Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta, onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805), Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824); sob essa influência e a de alguns professores, Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos, alemão e latim, seus autores favoritos, entre os clássicos, foram Platão (428-348 a.C.) e Ésquilo (525-456 a.C.). Durante o último ano em Pforta, escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. VI a.C.). Partiu em seguida para Bonn, onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia, mas, influenciado por seu professor predileto, Ritschl, desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig, dedicando-se à filologia. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias, mas estudos das instituições e do pensamento. Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. III), Hesíodo (séc. VIII a.C.) e Homero. A partir desses trabalhos foi nomeado, em 1869, professor de filologia em Basiléia, onde permaneceu por dez anos. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer (1788-1860). Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer, assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia, sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música.

Em 1867, Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar, mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação. Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883), que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima, filha de Liszt (1811-1886). Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical, principalmente com Tristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. A casa de campo de Tribschen, às margens do lago de Lucerna, onde Wagner morava, tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". Na mesma época, apaixonou-se por Cosima, que viria a ser, em obra posterior, a "sonhada Ariane". Em cartas ao amigo Erwin Rohde, escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". Na universidade, passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega, esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música.

O Filósofo e o Músico

Em 1870, a Alemanha entrou em guerra com a França; nessa ocasião, Nietzsche serviu o exército como enfermeiro, mas por pouco tempo, pois logo adoeceu, contraindo difteria e disenteria. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o filósofo durante toda a vida. Nietzsche restabeleceu-se lentamente e voltou a Basiléia a fim de prosseguir seus cursos.

Em 1871, publicou O Nascimento da Tragédia, a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner. Nessa obra, considera Sócrates (470 ou 469 a.C.-399 a.C.) um "sedutor", por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. A tragédia grega, diz Nietzsche, depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma", de Dioniso e Apolo, começou a declinar quando, aos poucos, foi invadida pelo racionalismo, sob a influência "decadente" de Sócrates. Assim, Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza, da harmonia e da ordem; Dioniso, o deus da exuberância, da desordem e da música. Segundo Nietzsche, o apolíneo e o dionisíaco, complementares entre si, foram separados pela civilização. Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual e o intelectual, entre o cidadão e o político, entre o poeta e o filósofo, entre Eros e Logos. Para ele a Grécia socrática, a do Logos e da lógica, a da cidade-Estado, assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força criadora. Nietzsche pergunta como, num povo amante da beleza, Sócrates pôde atrair os jovens com a dialética, isto é, uma nova forma de disputa (ágon), coisa tão querida pelos gregos. Nietzsche responde que isso aconteceu porque a existência grega já tinha perdido sua "bela imediatez", e tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução lançasse mão de uma "razão tirânica", a fim de dominar os instintos contraditórios.

Seu livro foi mal acolhido pela crítica, o que o impeliu a refletir sobre a incompatibilidade entre o "pensador privado" e o "professor público". Ao mesmo tempo, esperava-se com seu estado de saúde: dores de cabeça, perturbações oculares, dificuldades na fala. Interrompeu assim sua carreira universitária por um ano. Mesmo doente foi até Bayreuth, para assistir à apresentação de O Anel dos Nibelungos, de Wagner. Mas o "entusiasmo grosseiro" da multidão e a atitude de Wagner embriagado pelo sucesso o irritaram.

Terminada a licença da universidade para que tratasse da saúde, Nietzsche voltou à cátedra. Mas sua voz agora era tão imperceptível que os ouvintes deixaram de freqüentar seus cursos, outrora tão brilhantes. Em 1879, pediu demissão do cargo. Nessa ocasião, iniciou sua grande crítica dos valores, escrevendo Humano, Demasiado Humano; seus amigos não o compreenderam. Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e, ao mesmo tempo, afastou-se da filosofia de Schopenhauer, recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre"; isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. O homem, dizia Nietzsche, é o criador dos valores, mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente", de "eterno" e "verdadeiro", quando os valores não são mais do que algo "humano, demasiado humano".

Nietzsche, que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia", mudou de opinião, achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. Nessa época Wagner voltara-se, ao mesmo tempo, a recusa do cristianismo e de Schopenhauer; para Nietzsche, ambos são parentes porque são a manifestação da decadência, isto é, da fraqueza e da negação. Irritado com o antigo amigo, Nietzsche escreveu: "Não há nada de exausto, nada de caduco, nada de perigoso para a vida, nada que calunie o mundo no reino do espírito, que não tenha encontrado secretamente abrigo em sua arte; ele dissimula o mais negro obscurantismo nos orbes luminosos do ideal. Ele acaricia todo o instinto niilista (budista) e embeleza-o com a música; acaricia toda a forma de cristianismo e toda expressão religiosa de decadência".

Solidão, Agonia e Morte

Em 1880, Nietzsche publicou O Andarilho e sua Sombra: um ano depois apareceu Aurora, com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia". Mais uma vez, seu trabalho não foi bem acolhido por seus amigos; Erwin Rohde nem chegou a agradecer-lhe o recebimento da obra, nem respondeu à carta que Nietzsche lhe enviara. Em 1882, veio à luz A Gaia Ciência, depois Assim falou Zaratustra (1884), Para Além de Bem e Mal (1886), O Caso Wagner, Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche contra Wagner (1888). Ecce Homo, Ditirambos Dionisíacos, O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte.

Durante o verão de 1881, Nietzsche residiu em Haute-Engandine, na pequena aldeia de Silvaplana, e, durante um passeio, teve a intuição de O Eterno Retorno, redigido logo depois. Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela alternância da criação e da destruição, da alegria e do sofrimento, do bem e do mal. De Silvaplana, Nietzsche transferiu-se para Gênova, no outono de 1881, e depois para Roma, onde permaneceu por insistência de Fräulein von Meysenburg, que pretendia casá-lo com uma jovem finlandesa, Lou Andreas Salomé. Em 1882, Nietzsche propôs-lhe casamento e foi recusado, mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua amiga e discípula. Encontraram-se mais tarde na Alemanha; porém, não houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e, assim, acabaram por se afastar definitivamente.

Em seguida, retornou à Itália, passando o inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. Em Rapallo, Nietzsche não se encontrava bem instalado; porém, "foi durante o inverno e no meio desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra".

No outono de 1883 voltou para a Alemanha e passou a residir em Naumburg, em companhia da mãe e da irmã. Apesar da companhia dos familiares, sentia-se cada vez mais só. Além disso, mostrava-se muito contrariado, pois sua irmã tencionava casar-se com Herr Foster, agitador anti-semita, que pretendia fundar uma empresa colonial no Paraguai, como reduto da cristandade teutônica. Nietzsche desprezava o anti-semitismo, e, não conseguindo influenciar a irmã, abandonou Naumburg.

Em princípio de abril de 1884 chegou a Veneza, partindo depois para a Suíça, onde recebeu a visita do barão Heinrich von Stein, jovem discípulo de Wagner. Von Stein esperava que o filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal, talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu ataque contra Wagner. Por seu lado, Nietzsche viu no rapaz um discípulo capaz de compreender o seu Zaratustra. Von Stein, no entanto, veio a falecer muito cedo, o que o amargurou profundamente, sucedendo-se alternâncias entre euforia e depressão. Em 1885, veio a público a Quarta parte de Assim falou Zaratustra; cada vez mais isolado, o autor só encontrou sete pessoas a quem enviá-la. Depois disso, viajou para Nice, onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky, que lera Assim falou Zaratustra e escrevera um artigo, publicado em um jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florença. Certa vez, Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de "mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que me trata dessa maneira".

Depois de 1888, Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. Um ano mais tarde, em Turim, enfrentou o auge da crise; escrevia cartas ora assinando "Dioniso", ora "o Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia, onde foi diagnosticada uma "paralisia progressiva". Provavelmente de origem sifilítica, a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia. Nietzsche faleceu em Weimar, a 25 de agosto de 1900.

O Dionisíaco e o Socrático

Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com meios de expressão: o aforismo e o poema. Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro, mas sim de interpretar e avaliar. A interpretação procuraria fixar o sentido de um fenômeno, sempre parcial e fragmentário; a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos, totalizando os fragmentos, sem, no entanto, atenuar ou suprimir a pluralidade. Assim, o aforismo nietzschiano é, simultaneamente, a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada, e o poema constitui a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. O intérprete seria uma espécie de fisiologista e de médico, aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos; o avaliador seria o artista que considera e cria perspectivas, falando pelo poema. Reunindo as duas capacidades, o filósofo do futuro deveria ser artista e médico-legislador, ao mesmo tempo.

Para Nietzsche, um tipo de filósofo encontra-se entre os pré-socráticos, nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida, esta "estimulando" o pensamento, e o pensamento "afirmando" a vida. Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica, e, em lugar de uma vida ativa e de um pensamento afirmativo, a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida", opondo a ela valores pretensamente superiores, mediando-a por eles, impondo-lhes limites, condenando-a. Em lugar do filósofo-legislador, isto é, crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos, surgiu o filósofo metafísico. Essa degeneração, afirma Nietzsche, apareceu claramente com Sócrates, quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível. Sócrates "inventou" a metafísica, diz Nietzsche, fazendo da vida aquilo que deve ser julgado, medido, limitado, em nome de valores "superiores" como o Divino, o Verdadeiro, o Belo, o Bem. Com Sócrates, teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente "submisso", inaugurando a época da razão e do homem teórico, que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia.

Para Nietzsche, a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e, nesse sentido, constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional, algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos, tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos". Segundo Sócrates, a arte da tragédia desvia o homem do caminho da verdade: "uma obra só é bela se obedecer à razão", formula que, segundo Nietzsche, corresponde ao aforismo "só o homem que concebe o bem é virtuoso". Esse bem ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo supra-sensível, no "verdadeiro mundo", inacessível ao conhecimento dos sentidos, os quais só revelariam o aparente e irreal. Com tal concepção, criou-se, segundo Nietzsche, uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora, e a consciência uma força crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora". Assim, Sócrates, o "homem teórico", foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. Com ele, o homem se afastou cada vez mais desse conhecimento, na medida em que abandonou o fenômeno do trágico, verdadeira natureza da realidade, segundo Nietzsche. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica, restou a Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito, o aspecto lógico-racional; faltou-lhe a visão mística, possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato, lógico, racional. Penetrar a própria razão das coisas, distinguindo o verdadeiro do aparente e do erro era, para Sócrates, a única atividade digna do homem. Para Nietzsche, porém, esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em arte".

Por essa razão, Nietzsche combateu a metafísica, retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente, e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades", mas como "sinais". A única existência, para Nietzsche, é a aparência e seu reverso não é mais o Ser; o homem está destinado à multiplicidade, e a única coisa permitida é sua interpretação.

O Vôo da Águia, a Ascensão da Montanha

A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é, ao mesmo tempo, uma luta acirrada contra o cristianismo.

Segundo Nietzsche, o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas, em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. Essa concepção constitui uma metafísica que, à luz das idéias do outro mundo, autêntico e verdadeiro, entende o terrestre, o sensível, o corpo, como o provisório, o inautêntico e o aparente. Trata-se, portanto, diz Nietzsche, de "um platonismo para o povo", de uma vulgarização da metafísica, que é preciso desmistificar. O cristianismo, continua Nietzsche, é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo, repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à vida, à dor e à luta, e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. "Este ódio de tudo que é humano", diz Nietzsche, "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria', este temor dos sentidos... este horror da felicidade e da beleza; este desejo de fugir de tudo que é aparência, mudança, dever, morte, esforço, desejo mesmo, tudo isso significa... vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida".

Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: "munido de uma tocha cuja luz não treme, levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal". A imagem da tocha simboliza, no pensamento de Nietzsche, o método filológico, por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia, pois procura "fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo". Nietzsche traz à tona, por exemplo, um significado esquecido da palavra "bom". Em latim, bonus significa também o "guerreiro", significado este que foi sepultado pelo cristianismo. Assim como esse, outros significados precisariam ser recuperados; com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de "bem" e de "mal". Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento ("é tua culpa se sou fraco e infeliz"); a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam, dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas); e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). A partir daqui, a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação, triunfando o negativo e a reação contra a ação. Quando esse niilismo triunfa, diz Nietzsche, a vontade de potência deixa de querer significar "criar" para querer dizer "dominar"; essa é a maneira como o escravo a concebe. Assim, na fórmula "tu és mau, logo eu sou bom", Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos que negam a vida, eu negam a "afirmação"; neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes, a baixeza transforma-se em nobreza. A "profundidade da consciência" que busca o Bem e a Verdade, diz Nietzsche, implica resignação, hipocrisia e máscara, e o intérprete-filólogo, ao percorrer os signos para denunciá-las, deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a "profundidade da interioridade" é coisa diferente do que ela mesma pretende ser. Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência, o Bem é a vontade do mais forte, do "guerreiro", do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos, do super-homem, entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano, é o além-do-homem. Assim, o vôo da águia, a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície.

A etimologia nietzschiana mostra que não existe um "sentido original", pois as próprias palavras não passam de interpretações, antes mesmo de serem signos, e se elas só significam porque são "interpretações essenciais". As palavras, segundo Nietzsche, sempre foram inventadas pelas classes superiores e, assim, não indicam um significado, mas impõem uma interpretação. O trabalho do etimologista, portanto, deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado, na medida em que tudo é máscara, interpretação, avaliação. Fazer isso é "aliviar o que vive, dançar, criar". Zaratustra, o intérprete por excelência, é como Dioniso.

Os Limites do Humano: O Além-do-Homem

Em Ecce Homo, Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso, concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade, como um deus artista, totalmente irresponsável, amoral e superior ao lógico. Por outro lado, a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência, aberta para o futuro, e o "eterno retorno", que faz do futuro numa repetição; esta, no entanto, não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo; o eterno retorno nietzschiano é essencialmente seletivo. Em dois momentos de Assim falou Zaratustra (Zaratustra doente e Zaratustra convalescente), o eterno retorno causa ao personagem-título, primeiramente, uma repulsa e um medo intoleráveis que desaparecem por ocasião de sua cura, pois o que o tornava doente era a idéia de que o eterno retorno estava ligado, apesar de tudo, a um ciclo, e que ele faria tudo voltar, mesmo o homem, o "homem pequeno". O grande desgosto do homem, diz Zaratustra, aí está o que me sufocou e que me tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o adivinho: tudo é igual. E o eterno retorno, mesmo do mais pequeno, aí está a causa de meu cansaço e de toda a existência. Dessa forma, se Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o desigual e a seleção. Para Dioniso, o sofrimento, a morte e o declínio são apenas a outra face da alegria, da ressurreição e da volta. Por isso, "os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas", diz Nietzsche, "mas, como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias, dirão à vida: uma vez mais".

Para Nietzsche, portanto, o verdadeiro oposto a Dioniso não é mais Sócrates, mas o Crucificado. Em outros termos, a verdadeira oposição é a que contrapõe, de um lado, o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida; de outro, a afirmação do devir e do múltiplo, mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso. Com essa concepção, Nietzsche responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma vida para a qual tudo se tornou vão, o homem descobre no eterno retorno a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e da destruição, da alegria e do sofrimento, do bem e do mal. O eterno retorno, e apenas ele, oferece, diz Nietzsche, uma "saída fora da mentira de dois mil anos", e a transmutação dos valores traz consigo o novo homem que se situa além do próprio homem.

Esse super-homem nietzschiano não é um ser, cuja vontade "deseje dominar". Se se interpreta vontade de potência, diz Nietzsche, como desejo de dominar, faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. Com isso, desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força criadora de novos valores. Vontade de potência, diz Nietzsche, significa "criar", "dar" e "avaliar".

Nesse sentido, a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. A moral do além-do-homem, que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta, é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. Oposta, portanto, à moral da compaixão, da piedade, da doçura feminina e cristã. Assim, para Nietzsche, bondade, objetividade, humildade, piedade, amor ao próximo, constituem valores inferiores, impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos, pelo orgulho, pelo risco, pela personalidade criadora, pelo amor ao distante. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência. O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação, como a crítica total que acompanha a criação; assim, Zaratustra, o profeta do além-do-homem, é a pura afirmação, que leva a negação a seu último grau, fazendo dela uma ação, uma instância a serviço daquele que cria, que afirma.

Compreende-se, assim, porque Nietzsche desacredita das doutrinas igualitárias, que lhe parecem "imorais", pois impossibilitam que se pense a diferença entre os valores dos "senhores e dos escravos". Nietzsche recusa o socialismo, mas em Vontade de Potência exorta os operários a reagirem "como soldados".

Uma Filosofia Confiscada

Apoiado na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã, em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio do super-homem, desenvolveu-se um pensamento nacionalista e racista, de tal forma que se passou a ver no autor de Assim Falou Zaratustra um percursor do nazismo. A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth, que, ao assegurar a difusão de seu pensamento, organizando o Nietzsche-Archiv, em Weimar, tentou colocá-lo a serviço do nacional-socialismo. Elisabeth, depois do suicídio do marido, que fracassara em um projeto colonial no Paraguai, reuniu arbitrariamente notas e rascunhos do irmão, fazendo publicar Vontade de Potência como a última e a mais representativa das obras de Nietzsche, retendo até 1908 Ecce Homo, escrita em 1888. Esta obra constitui uma interpretação, feita por Nietzsche, de sua própria filosofia, que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. Ambos foram combatidos pelo filósofo, desde sua participação na guerra franco-prussiana (1870-1871).

Por ocasião desse conflito, Nietzsche alistou-se no exército alemão, mas seu ardor patriótico logo se dissolveu, pois, para ele, a vitória da Alemanha sobre a França teria como conseqüência "um poder altamente perigoso para a cultura". Nessa época, aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia, Jacob Burckhardt (1818-1897), que insistia junto a seus alunos para que não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício de verdadeira grandeza.

Em Para Além de Bem e Mal, Nietzsche revela o desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. Por outro lado, quando confiou ao "louro" a tarefa de "virilizar a Europa", Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães, homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e nacional... que só sabem obedecer pesadamente, disciplinados como uma cifre oculta em um número". No mesmo sentido, Nietzsche caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de "obediência e longas pernas". E acabou rompendo definitivamente com Wagner, por causa do nacionalismo e anti-semitismo do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que desprezo, até o anti-semitismo".

Para compreender corretamente as idéias políticas de Nietzsche, é necessário, portanto, purificá-lo de todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome. Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. "A democracia é a forma histórica de decadência do Estado", afirmou Nietzsche, entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento, sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: "estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados, segundo as quais o estado é o mais alto fim do homem, e, assim, não há mais elevado fim do que servi-lo. Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez". Por outro lado, Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção; essas teorias seriam apenas "fantásticas"; para ele, ao contrário, o Estado tem uma origem "terrível", sendo criação da violência e da conquista e, como conseqüência, seus alicerces encontram-se na máxima que diz: "o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância, usurpação e violência".

O Estado, diz Nietzsche, está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem, portanto, tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre, tornando-a estática e estereotipada. Ao contrário disso, o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-do-homem.

Assim Falou Zaratustra

Em Ecce Homo, Nietzsche intitulou seus capítulos: "Por que sou tão finalista?", "Por que sou tão sábio?", "Por que sou tão inteligente?", "Por que escrevo livros tão bons?". Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e desqualificada pela loucura. Essa opinião, no entanto, revela um superficial entendimento de seu pensamento. Para entendê-lo corretamente, é necessário colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção da filosofia: Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia, fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença "um ponto de vista" sobre a saúde e vice-versa. Para ele, nem a saúde, nem a doença são entidades; a fisiologia e a patologia são uma única coisa; as oposições entre bem e mal, verdadeiro e falso, doença e saúde são apenas jogos de superfície. Há uma continuidade, diz Nietzsche, entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau, sendo a doença um desvio interior à própria vida; assim, não há fato patológico.

A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa, esconde um saber fatal e "demasiado certo". A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a "meditação ascética", que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões; com isso, a vontade de potência, a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados "manifestações diabólicas". Mas, para Nietzsche, aniquilar as paixões é uma "triste loucura", cuja decifração cabe à filosofia, pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas, rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. Para Nietzsche, os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria, alguma coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados foram espalhados pela Grécia". Em suma, aos "filósofos além de bem e mal", aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso, diz Nietzsche, a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade, sob o travestimento da loucura. É dentro dessa perspectiva, portanto, que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. Sua crise final apenas marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e, como tal, pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. A filosofia foi, para ele, a arte de deslocar as perspectivas, da saúde à doença, e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: "Na verdade, a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa, ainda que para outros signifique doença... Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade".

em: http://www.mundodosfilosofos.com.br/nietzsche.htm

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Conceitos Básicos de Sociologia por Weber

Numa idéia de singularidade enquanto aos estudos dos fatos sociais e eventos culturais, Weber destaca os significados peculiares a cada fenômeno social. Destaca também a especificidade de cada um. Isso significa que a ação social é determinada pela conduta humana, que, por sua vez, tem caráter estritamente subjetivo. Porém um estudo tendo tal ponto de vista é, efetivamente, inatingível. Isso porque a cultura é particularmente infinita, sendo assim é necessária uma análise fatigante que envolva todas as variáveis, o que, numa realidade empírica, é estratificada em diversas áreas.

A teoria do conflito, para Weber, não se limita apenas na luta de classes – essa, por sua vez, tem objetivo tão somente coletivo. A ascensão profissional, o reconhecimento popular, a acumulação do capital, a dominação e o poder são exemplos de formas individuais de conflitos. Essa concepção não positivista contribui para uma idéia de indivíduo ativo, ou seja, o indivíduo capaz de impor algo segundo a sua própria vontade. Esse conflito origina-se da distribuição desigual de recursos valorizados pela sociedade (dinheiro, prestígio, moradia, emprego etc.).

No entanto isso apenas pode ser visto dentro de relações sociais.

O agir, para Max Weber, se resume na orientação da conduta de um indivíduo levando em consideração a ação correspondente à expectativa do mesmo indivíduo. Melhor: o agente emissor de um primeiro sinal espera um outro sinal como resposta, de um outro indivíduo, entretanto que corresponda à expectativa do primeiro emissor. Assim se faz a relação social que, por meio desta, implica as formas de dominação, poder e conflito.

A imposição da própria vontade dentro de uma relação social é uma forma de dominação; de modo legítimo através das leis públicas e de modo psíquico através da coerção espontânea. Porém a dominação não se limita a circunstâncias específicas.

A dominação legal que tem, objetivamente, um fim específico, se baseia em estatutos e regulamentos. A divisão do trabalho, hierarquia de autoridades, controle de emoções, competências técnicas, controle organizacional dos cargos são características burocráticas da forma legal de dominação, que se diferencia da forma tradicional no requisito regulamento. Essa já na conta com estatuto, mas sim com o respeito a crenças há muito tempo estabelecidas. Por último a dominação carismática, que, de fato, utiliza a emoção como alicerce de manutenção do poder. Jesus Cristo foi um grande líder carismático, os principais elementos que deram suporte à sua dominação foram a divindade, dotes sobrenaturais e suas qualidades como precursor da salvação da humanidade.

Reflexão Sobre o Segundo Livro da Obra 'O Suicício' de Èmile Durkheim

Introdução

Durkheim aborda o suicídio como causa tão somente social, enfatizando as características e o classificando de acordo elas. Ele dispõe de grupos suicidas: o egoísta, em que o indivíduo é motivado por um isolamento exagerado em relação à sociedade, que o transforma em um “solitário”, sendo que os laços sólidos se desintegram; o altruísta, o indivíduo está estreitamente sob a obediência do coletivo, renunciando-se à própria vida em detrimento de algo que, por sua concepção, é maior que ele; e anômico, em que o suicídio é determinado por ordem social ou econômica.

Na obra o autor redobra a atenção para as taxas de suicídios e estatísticas em determinados países que registraram números sobre esse fato. Porém, o mesmo Durkheim, sugere um melhor estudo desses dados, pois não há interpretações e explicações para tais ocorrências, decorrendo, assim, uma não exatidão de certos números.

Portanto, Durkheim desenvolve uma análise sistemática em torno de um fenômeno social, adquirindo uma forma sociológica e não psico-orgânica – o que não corresponde aos suicídios vesânicos -, partindo de formas individuais, com variação de grau, gênero, faixa etária, estado civil e casos especiais, à formação morfológica do suicídio.

Apreciação

De fato, cada grupo social tem uma tendência ao suicídio que somente é explicada por fenômeno social. Isto porque as forças exteriores, como família, Igreja, amigos, escola, grupos sociais, enfim, a sociedade, moldam o comportamento do indivíduo conforme sua integração ou desintegração nela e a sua transformação.

As formas individuais de suicídio motivam a classificação dos suicídios em egoísta, altruísta e anômico. Tais formas são condizentes com a situação social, psíquica e emocional do indivíduo. Ou seja, a análise do suicídio racional é elaborada a partir do estado psicológico em que o suicida se encontra, de como preparou e executou o suicídio e de seu estado emocional no momento do ato. Pois diversos fatores são influentes em variadas ações, exemplo semelhante a um piloto de Fórmula 1, em que ele, para vencer uma corrida, precisa estar em estado psicológico favorável, preparar o carro e executar as manobras com o máximo de perfeição e estar emocionalmente estável.

A diversidade nos tipos de suicídio é um importante aspecto no estudo da obra, uma vez que há um determinismo em cada fenômeno social. Exemplo: a violência varia de região para região e de classe social para classe social, o que não é diferente para o suicídio. Durkheim cita em sua obra a variação entre agricultores e profissionais liberais, dando margem a uma diferenciação das formas e tipos sociais de suicídio. Ele revela a pouca exatidão dos números demonstrados pelos países no século XIX, em que é notada uma aproximação entre os dois graus de profissão, o que é descartado por esse determinismo.

Assim também ele trata sobre o suicídio dentro das religiões, sejam elas cristãs ou não. Abordando com aproximação o número de suicídios dentre essas religiões, sendo que em dado momento ele retrata a religião judaica como a menos que provém de suicídios, visto como a mais cimentada. Mas quando a sociedade religiosa, da qual o indivíduo faz parte, perde sua coesão, ele procura sua autodestruição. No entanto isso não é apenas visto no suicídio, mas, como também, na sua cultura e na sua concepção econômica, o que, de fato, confirma as expectativas de Durkheim.

É comprovado, também, que o índice de suicídios por mulheres no mundo é menor que os homens, pois a mulher convive mais tempo com a família que o próprio homem. Essa informação se confirma através da carga horária de trabalho atribuída ao homem, de forma que este passa mais tempo fora do seio familiar, e isso é um fator relevante para a causa do suicídio, principalmente na forma egoísta.

Até os dezesseis anos a tendência do indivíduo ao suicídio é muito fraca por causa da idade, visto que, durante este período, o sujeito ainda não se integrou totalmente à sociedade. O mesmo conceito se utiliza para à aplicabilidade da maioridade penal, em que o jovem ainda não tem total formação de cidadania e, portanto, não é responsável por seus atos.

Segundo, Durkheim, o casamento e a vida familiar aumentam o risco de suicídio pelo fato de uma união exigir uma preocupação por parte do indivíduo quanto à sustentabilidade familiar, afeto e preservação de sua imagem.

Ainda numa mesma ordem, quanto à situação da viúva, ela é mais crítica que a do viúvo, porquanto que há dificuldade na manutenção da família e na sua consistência moral. Durante o matrimônio, em que a mulher passa a maior parte do tempo com a família, futuramente, com a perda do marido, ela sentirá muito mais a falta, pois existirão problemas de ordens econômicas e proporções éticas.

No campo geográfico, em todos os países da Europa, a Inglaterra se enquadra no padrão de menor indicador de suicídios. Porque ela fica sendo a que dá liberdade religiosa e não tendo preconceito quanto à escolha da pessoa sobre seu seguimento místico.

Durkheim elucida o modo suicida altruísta a partir de uma exasperada pressão da sociedade para com o indivíduo, de maneira que os dogmas e símbolos sociais favorecem o suicídio. Por exemplo, na obra, há uma passagem em que Plutarco cita que a espera da morte é uma desonra, isto é, a doença e a velhice são formas de não virtudes manifestadas nos homens que, através do suicídio, podem ser aniquiladas da vida do sujeito. Isso é comprovadamente verídico a partir do momento que os símbolos culturais moldam o comportamento da sociedade; o homem é produtor e produto e de sua cultura. O indivíduo, por exemplo, ao ser traído por sua esposa, posteriormente é pressionado pela sociedade a tomar decisões precipitadas pelo fato de um ato como este lhe causar tamanha desonra e vergonha, e, com probabilidade de suicídio tanto egoísta quanto altruísta, ele é levado à própria destruição.

Outra característica decorrente do suicídio altruísta corresponde à idolatria a um outro indivíduo ou instituição, determinando que sua vida plenamente depende de uma força exterior. Isto é, a mãe que se sujeita a dar a vida pelo próprio filho, visto isso muitas vezes em partos que o risco de morte do bebê é ocasionado pela própria sobrevivência da mãe. Também quando um homem de posses perde todos os seus bens, ele é instigado tanto ao suicídio para zelar o nome da família quanto à moral na sociedade quanto pelo fato de criar uma expectativa ruim em relação ao modo vida futura. Encontra-se, nesse exemplo, o suicídio anômico-altruísta.

Também a influência religiosa talvez seja uma das maiores causas de suicídio altruísta, isso porque muitos indivíduos optam pelo suicídio fundamentado em dogmas religiosos. A fome e a sede são exemplos clássicos de suicídios provenientes de crenças religiosas. No entanto, atualmente, é notória a observação desse aspecto na religião católica, em que o fiel faz sacrifício de jejum como forma de sentimento e remissão determinados pelos dogmas da Igreja, não é uma forma de suicídio, mas detém-se do mesmo objetivo: autoflagelação e submissão.

 Èmile Durkheim, em sua obra, revela que, como estado crônico, o exército se faz presente como o meio de suicídio altruísta mais freqüente na sociedade. De fato, ele é parte do objetivo do soldado: morrer pela pátria. Isso significa uma subordinação do indivíduo quanto à Instituição da qual pertence. Na guerra o suicido se faz presente em sua forma concreta quando o indivíduo renuncia a vida em cumprimento de um dever que lhe foi imposto. Certamente o autor propôs uma nova visão do exército, como forma de dominação sobre o indivíduo, enxergando uma perspectiva dogmática em torno de uma causa política, porém, de maneira funcional, ele não questiona o papel do exército quanto instituição favorável à sociedade, visando apenas seu papel quanto órgão regulador (concentração de poder) da harmonia social.

No tocante, o soldado tem por concepção dar sua vida em razão da vida do outro, entretanto a sua concepção diante da vida de soldados inimigos não pode ser igualmente comparada à primeira. Desse modo ele se torna produto da ideologia patriótica vigente em seu ponto de vista, ou seja, é programado para uma morte em favor de uma causa que não tem por objetivo beneficiar a ele próprio.

As transformações sócio-econômicas fazem com que a sensibilidade do indivíduo se torne aguçada, levando-o a uma escolha de auto-aniquilação, pensado ele não haver mais razão para viver e um ponto cume de irritação que o faz destruir a si próprio. A inflação pode ser causa do suicídio anômico, por exemplo: o cidadão ao se defrontar com uma crise econômica, sensibiliza-se – ficando irritado ou extramente melancólico – diante da situação, não pensando em um outro meio de saída senão à morte. Enfim, causas sociais influenciam no comportamento do sujeito e no seu estado emocional e psíquico, contrariando a natureza humana que não impõe a tristeza ou aborrecimento às coisas, ou seja, a mente humana atinge um estado de patologia. Não é diferente em casos freqüentes nas famílias, porém, em sua maioria, não leva o indivíduo ao suicídio; nas famílias se encontram tanto fatos melancólicos quanto aborrecimentos que tornam o comportamento do indivíduo indiferente.

Atingir a felicidade para Durkheim só é possível através dos requisitos que o meio social proporciona às necessidades humanas, isto é, o homem apenas alcança a felicidade se o desejo de viver seja mantido pela realização de suas necessidades através do meio social em que vive. Exemplo: felicidade para o judeu significa contentamento; contentar-se com o que lhe é concebido, assim como foram as perseguições anti-semitas, os judeus tinham por concepção a não redenção, porém o gratificação ao seu Deus diante da sua vontade. Porém se essas necessidades não fossem proporcionais ao meio social, o indivíduo era motivado a uma falta de razão perante a vida, o que, por conseguinte, resultaria num suicídio anômico. Entretanto a visão de sujeito passivo de Durkheim, interfere numa transformação dos requisitos propostos pela sociedade, que é dominada por uma força de concentração de poder; se o sujeito durkheimiano fosse ativo e transformador do meio social, esses requisitos seriam de tal forma moldados a partir das necessidades que lhes são atribuídas e não mais o sujeito viveria em função da sociedade, seria atuante e acima dela.

Por fim, presente nas três formas, egoísta, altruísta e anômico, o suicídio sintetiza um fenômeno social presente nas civilizações passadas, presentes e futuras. A melancolia, a não-ação, a concentração e análise de si mesmo, a individualização da consciência, o afastamento social, a falta de vontade de viver oriunda da elevação da consciência e impregnada na compreensão estóica, o estado patológico da mente e o ímpeto de fé dão implicações na auto-execução; essas formas individuais de suicídio resultam na formação morfológica da classificação destes, desde suicídios famosos como o de Judas até suicídios fictícios como os vistos em filmes na música Pais e Filhos, do compositor brasileiro Renato Russo. Todos estes têm uma causa procedente do ambiente social. Os fatores exteriores dos quais derivam essas causas, não são intrínsecos ao homem, obtendo no decorrer de sua existência como ser social. Mesmo utilizando de argumentos funcionalistas, Durkheim segregou as origens sociais dos suicídios não vesânicos, e, por isso, não apresentou a organização e modelo social funcional como causadora dessas origens, mas, sim, sua ordem operacional, distribuidora e reguladora dos fenômenos sociais como inerentes às sociedades e à sua estrutura e funcionamento.

Considerações Finais

Foi abordado, criticamente e reflexivamente, as idéias propostas pelo sociólogo francês Émile Durkheim, no segundo livro da obra O Suicídio. Ele apresentou os três tipos de suicídios e as suas divisões, tanto em suas formas individuais quanto nos números estatísticos. Inicialmente ele descreveu os tipos e as causas sociais do suicídio: enfatizando o ângulo sociológico, ele fundamentou as origens no âmbito social, descartando a “constituição orgânico-psíquica do homem e a natureza do meio físico”, como se refere no primeiro capítulo. Na resenha foi concatenada os tipos de suicídio elaborado por Durkheim e seus exemplos, sempre numa tomada atual e pertinente à realidade contemporânea, assim como foi descrito os exemplos do piloto de fórmula 1, da traição e arruinamento financeiro, o que não impediu de exemplificar também uma cultura diversificada como a do Judeu.

Então, por esse contorno, se elucidou os principais pontos da obra e suas reflexões; não se isentando do dever crítico de uma olhar acadêmico sobre a obra. Assim se fez as objeções necessárias como também a confirmação e autenticidade de pontos importantes na apreciação do livro, determinando, portanto, a validade dessas reflexões.