domingo, 16 de março de 2008

Analisando Quintana

Inscrição para uma lareira


A vida é um incêndio: nela

dançamos, salamandras mágicas

Que importa restarem cinzas

se a chama foi bela e alta?

Em meios aos toros que desabam,

cantemos a canção da chama!


Cantemos a canção da vida,

na própria luz consumida...

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Observando o início intenso do poema, um início desequilibrado, se pode fazer uma relação importante: conceito/interpretação.

Observa-se:

Vida: o espaço de tempo que vai do nascimento à morte; existência.

Incêndio: fogo que lavra com intensidade, destruindo e, às vezes, causando prejuízos. (Jack, O Estripador, analisaria por chamas: claridades intensas; luz. Assim o incêndio não passaria desses grandes acontecimentos (chamas) na vida, importantes, relevantes, que serviriam para montar, numa só pauta, os caminhos percorridos no decorrer de uma existência).

Pois bem, esse tempo de existência é um fogo intensivo e, numa visão pessimista em que a vida seja um eterno querer insatisfeito - Schopenhauer expõe a vida como manifestação de vontade -, um fogo que se torna a manifestação do sofrimento. Ou seja, "fogo" = "sofrimento".

No tocante, na mesma intencionalidade pessimista:

"... a existência (humana) é um intensivo sofrer..."

Continua: "(...) nela / dançamos, salamandras mágicas"

Dançar: balançar; oscilar.

A vida é um eterno balançar, uma eterna oscilação entre o sofrer e a não-percepção do sofrer (felicidade = a sensação - as emoções, sentimentos - de que o sofrimento não está presente em determinado tempo e espaço, ou seja, a ausência sensitiva do sofrimento, a diminuição das proporções em que o sofrimento se manifesta).

Salamandras mágicas: anfíbios, sem nenhum teor de magia, que o IBAMA proibe a venda (talvez o autor se refira a uma afeição mágica ou sem explicação por algo). Essas "lagartixas" vivem tanto na água como na terra. Elas nadam com movimentos de cobra, se esquivando de um lado a outro, o que não é diferente na vida para diminuir as proporções tamanhas que o sofrimento toma.

Terceiro e quarto verso:

Cinzas: numa interpretação contínua da que foi iniciada, igualmente são aos restos mortais, o que sobrou.

O sofrimento, com grande euforia e emoção, se torna o produto da existência, e não mais o produtor dela. Um sentido exato para a vida: fim. Um sentido exato para a existência: viver.

Chama: já explicado no modo estripadoriano.

Belo: algo agradável aos sentidos.

Pois, se a chama é bela, o sofrimento é agradável aos sentidos? Por que não? Por que não? Utiliza-se dos sentidos para tal... chorar, sorrir, gritar também fazem parte do sofrer!

Alto: uma chama alta. Altura: cume.

O ponto elevado dos acontecimentos da vida.

= "o que importa o fim, e o que sobrou dele, se as interpretações dos acontecimentos foram úteis?"

Dois últimos versos da primeira estrofe:

Toro: troncos de árvores abatidas.

Cantar: exprimir por meio do canto.

Enquanto o incêndio vital vai devastando todas as interpretações falsas e românticas, se exprime a utilidade do sofrer em determinadas ocasiões da vida.

Últimos versos:

Luz: (Física) radiação eletromagnética, capaz de provocar sensação visual num observador comum.

Consumir: correr até à destruição; destruir. Destruir pelo fogo.

Quintana repete o modo expressivo de utilidade, porém, agora, todos os conceitos já foram revelados: o que restou foi, apenas, "a poesia que retrata a vida (um reflexo ofuscado por ausências imperceptíveis de sofrimento) na própria vida declarada pelo sofrimento."

"A poesia que retrata a vida na própria vida declarada pelo sofrimento"

"O sofrimento que declara a vida na própria vida que retrata a poesia"

Não tem por onde correr: o tempo de existir, indo ou vindo, é um eterno sofrer!

quinta-feira, 13 de março de 2008

Falácia

Quando a nave estacionou
Achou tudo muito estranho
O mesmo dono do pasto
Também é o do rebanho
Depois de tanta estranheza
Encontraram a solução
O problema social
Está na sua divisão

Sem perder o raciocínio
Encontraram outro absurdo
Como pode acontecer
Em quase todo esse mundo
Como pode nesse tempo
Um com duas moradias
Fosse assim, um mesmo astro
Ocupava a noite e o dia

Uns morando em palafitas
Outros com ar-condicionado
Esse sistema político
Tem algo de errado
Mas acompanhe comigo
O retrocesso civil
Enquanto um cresce na China
Outro fale no Brasil

Para ser o que se é
Não é preciso ser que seja
Basta ter um fundamento
Que a população deseja
Para ser bem educado
Não é preciso gentileza
E para poder ser bonito
Não é preciso ter beleza

Zé Justo, resolvidor de problemas

Zé num mata cobra
Mas é pau pra toda obra

Ô, Zé... cunserta a torneira que ta pingando
Ô, Zé... o que faço com esse homi reclamano?

A telha do telhado quebrou
O gás acabou
A mais véia emprenhou
A mais nova fugiu

O galo cantou
O dia raiou
As galinha sumiu

A vaca num dá leite
O mar num ta pra peixe
O casamento acabado
E, pra aumentar o piquete,
O Tonho num vende fiado

Ô, Zé... me dá uma luz...
Já fui até pra Universal
Descarregar o meu lamento
Mas é só sentar no seu divã
Pra aliviar meu sofrimento