quinta-feira, 13 de março de 2008

Questão de Filosofia

[Numa prova de Filosofia aparece a seguinte questão]

IV – Atente para a seguinte passagem:

A sua última opção com a falta de sentido e a falta de propósito é resistir bravamente: trinque os dentes e agüente. As coisas mudam. Depois que chegou ao fundo do poço, as coisas só podem melhorar. (Se piorarem, obviamente, ainda não chegou ao fundo!) Hermann Hesse ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, mas antes já pensara seriamente no suicídio, tão profunda era sua convicção de que não havia razão para viver. O seu talento como escritor desabrochou tarde em sua vida, mas, nesse meio tempo, não conseguia ver qual era seu propósito e, sem propósito, não via o sentido de sua vida. Mais tarde, seus livros exploraram problemas de identidade pessoal, significados interiores e propósitos ocultos da vida, e padrões no caminho para o esclarecimento. A dificuldade de sua própria estrada iluminou sua escrita, o que, por sua vez, inspirou uma geração, embora este fosse um propósito certamente perdido nele enquanto lutava na juventude. Por fim, resistiu até as coisas melhorarem. Você é que sabe quanto consolo encontrará na idéia de que, se puder exercitar a paciência e a coragem – duas virtudes fundamentais -, a mudança ocorrerá. Quase sempre somos capazes de extrair significado e propósito dos acontecimentos, mesmo dos acontecimentos mais horripilantes, mas, às vezes, isso leva tempo.

(MARINOFF, Lou. Mais Platão, menos Prozac. p. 281)

Suponha como seria a conversa conciliadora (no nível do conselho e do autoconhecimento) entre Sócrates e uma pessoa que estivesse intensamente desiludida a respeito da vida. Não se esqueça de abordar as etapas inerentes do método socrático, bem como sua concepção de que todo saber, pelo menos em seu primeiro reconhecimento como saber, é nada.

[um aluno responde em sua prova]

Dr. Sócrates e o Sábio Chinês

Em uma tarde de muito sol, um sábio chinês foi se consultar com o Dr. Sócrates. Então lhe disse o que estava o angustiando e o levando a pensar que a vida não mais tinha sentido.

SÁBIO

Doutor, eu não vejo mais razão para essa vida

De tudo que as pessoas perguntam, eu tenho a saída

De que me adianta viver

Se não tenho mais a aprender?

SÓCRATES

Diante desta situação

Você mesmo pode tirar sua conclusão!

SÁBIO

Mas como Doutor?

SÓCRATES

Como posso algo lhe responder

Se mais que eu deve conhecer?

Ou me procura por não saber?

SÁBIO

Preferiria, eu, não ser conhecedor de tudo

À que viver na angústia desse mundo!

SÓCRATES

Então vá!

E só volte aqui

Quando descobrir

O motivo disso que te deixa angustiado

Depois da consulta, o sábio chinês viveu eternamente, sentado e pensando.

[FIM]

quarta-feira, 12 de março de 2008

Em breve...

Algumas análises de músicas de Raul Seixas. Por enquanto eu preciso de tempo para refletir, afinal, como na enquete do blog, as músicas do rockeiro baiano tem uma relação social, política e filosófica com a interpretação da realidade.

De começo, iremos discutir, aqui, "O Conto do Sábio Chinês".

1. Será que são as idéias platônicas que estão presentes na música?
2. Será, então, que Hamlet tem alguma coisa a ver?
3. Ou será que literalmente a resposta se encontra no Mundo de Sofia e não há outra saída se não interpretar como o texto do livro propõe, uma questão acerca da realidade?

Uma boa pedida para um excelente começo!

Reflexão por si e sobre si do nada

O que a Filosofia da Loucura estuda? Será que, realmente, ela faz estudo de algo? O que ela se propõe a refletir? Refletir - assim o termo soa como deve soar -, pensar. Tarefas desenvolvidas com o intuito de estabelecer uma verdade? Absoluta? Individual? O que ela estuda, afinal?

Estabelecendo um parodoxo – não regra metodológica -, uma antinomia do refletir e do pensar.

Uma pequena utilização dos conceitos na origem da Filosofia da Loucura:

Refletir

  1. Exame de um determinado conteúdo através do espírito sobre si mesmo.

Pensar

  1. Formação de idéias, julgamento, suposição, estrutura de formulação interpretativa da realidade que fermentará a reflexão.

Assim pensa-se no objeto da Filosofia da Loucura: qual? Nada? Por que não? Por que não?

Estágio do pensar: “qual o objeto da Filosofia da Loucura? Nada?”

Estágio do refletir: “Por que não? Por que não?”

Por essa determinação conceitual, inicia-se uma reflexão sobre si mesmo:

  1. O que é o NADA?
  2. Para que serve o NADA?
  3. Qual origem do NADA?

Pois bem, relacionam-se as suposições (o que se dá a oscilação pensar/refletir):

  1. O que é:

a) O que não existe. Na concepção de reflexão, o nada não se torna uma variável válida. Ele é um conteúdo para exame por si e sobre si. Ele existe!

b) O que existe, mas não tem propriedade experimental. Do ponto um, existe, ao ponto dois, de modo intelectual, há uma ponte que se desdobra no confronto razão/emoção. No entanto isso se liquida na fase reflexão: como o nada se utiliza do conceito para a não-existência de algo, ele não se limita a ter uma expectativa racional, ele atua como a falta do sentimento de algo. Por esse motivo o indivíduo o aceita e o compreende, torna-o objeto de uma sensação ausente que torna presente a falta da mesma. Ou seja, tem propriedade experimental.

c) O motor infinito da existência das demais coisas. A origem de todo o pensamento. O conceito utilizado para o tudo em contraponto ao mesmo nada.

  1. Para que serve:

a) Talvez seja a mais complexa idéia para reflexão: função. Porém o nada existe para dar valor às coisas, assim como ele é o motor infinito para as demais. A não-existência de algo é função da existência de outro; no mais, o nada é a função da existência do mesmo nada.

b) Serve para exame de conteúdo sobre si.

  1. Origem:

a) Motor das demais coisas, o nada surgiu da necessidade do próprio nada. Mas antes de existir, o nada existia, o que faz dele infinito. Então a reflexão que se faz sobre si é da utilização dele. Como sempre foi a ausência do algo, o nada existiu (isso fazendo algo infinito) a partir da existência do algo? Se se passou a existir a partir da existência de algo, e se o nada é a não-existência deste, dessa forma o nada sempre existiu, mesmo se algo passou a existir (não sendo algo, a não ser o nada, infinito). Conclusão, existindo ou não algo infinito – o que não é a reflexão exposta aqui -, que não seja o nada, o nada sempre existiu e sempre existirá.

A reflexão se fez por si e sobre si a partir de uma verdade individual – a usada para as reflexões. O fim é o início da mesma reflexão pelo fato da verdade se portar como um conteúdo de exame por si e sobre si.